Protopoema

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa
dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

 

José Saramago

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Espaço Curvo e Finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

 

José Saramago

14

Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o

sono cansado da tribo ou rebanho de gente que va-

gueia pelos campos

Um homem ao norte uma mulher ao sul outro

homem a oriente e a ocidente a segunda mulher

Estão sentados de pernas cruzadas atentos a to-

das as sombras e gritam quando há perigo

Mas porque os perseguidores não gostam de

atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes

calma apenas fria

Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em

quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai

agradecer aos vigias a vida conservada

Depois o homem do norte e a mulher do sul o

homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os

sexos porque assim foi decidido que deveria aconte-

cer todas as manhãs

Enquanto a união dura cantam em redor a única

canção feliz que não esqueceram

O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que

são a esperança inconsciente da tribo

Entretanto acende-se a primeira fogueira e o

fumo azul da lenha sobe para o céu

 

José Saramago

Do livro ” O Ano 1993 “

Espaço Curvo e Finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

 

José Saramago

Aqui, na Terra

Aqui, na Terra, a fome continua, 

A miséria, o luto, e outra vez a fome. 

  

Acendemos cigarros em fogos de napalme 

E dizemos amor sem saber o que seja. 

Mas fizemos de ti a prova da riqueza, 

E também da pobreza, e da fome outra vez. 

E pusemos em ti sei lá bem que desejo 

De mais alto que nós, e melhor e mais puro. 

  

No jornal, de olhos tensos, soletramos 

As vertigens do espaço e maravilhas: 

Oceanos salgados que circundam 

Ilhas mortas de sede, onde não chove. 

  

Mas o mundo, astronauta, à boa mesa 

Onde come, brincando, só a fome, 

Só a fome, astronauta, só a fome, 

E são brinquedos as bombas de napalme. 

José Saramago 

Eu luminoso não sou

saramago.jpg

 

Eu luminoso não sou.

Nem sei que haja

Um poço mais remoto,

e habitado

De cegas criaturas,

de histórias e assombros.

Se, no fundo poço,

que é o mundo

Secreto e intratável

das águas interiores,

Uma roda de céu

ondulando se alarga,

Digamos que é o mar:

como o rápido canto

Ou apenas o eco,

desenha no vazio irrespirável

O movimento de asas.

O musgo é um silêncio,

E as cobras-d'água

dobram rugas no céu,

Enquanto, devagar,

as aves se recolhem.

José Saramago