Dai-me rosas e lírios
•13/11/2009 • Deixe um comentárioDai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas…
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso… Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores…
Sejam essas as flores que me deis…
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão…
Qual é o sentido da vida?
Fernando Pessoa
A uma mulher
•13/11/2009 • Deixe um comentárioPara tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte pôr-te o berço estreito
N’algum palácio e ao pé de régio leito,
Em vez d’este areal onde cresceste:
Podia abrir-te as flores com que veste
As ricas e as felizes n’esse peito;
Fazer-te… o que a Fortuna há sempre feito…
Terias sempre a sorte que tiveste!
Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,
Que não são d’este mundo e onde eu leio
Uns mistérios tão tristes e infinitos,
Tia voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!
Antero de Quental
Ou Isto Ou Aquilo
•13/11/2009 • 1 ComentárioOu se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles
Poema
•13/11/2009 • Deixe um comentárioO grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.
O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura
as implacáveis solidões noturnas.
E se o que tanto busca só existe
em tua limpida loucura
- que importa? -
isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!
Mario Quintana
Sob o chuveiro amar
•13/11/2009 • 1 ComentárioSob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?
Carlos Drummond de Andrade
De um amor morto
•11/11/2009 • 2 ComentáriosDe um amor morto fica
um pesado tempo quotidiano
onde os gestos se esbarram ao longo do ano
De um amor morto não fica
nenhuma memória
o passado se rende
o presente o devora
e os navios do tempo
agudos e lentos
o levam embora
Pois um amor morto não deixa
em nós seu retrato
de infinita demora
é apenas um facto
que a eternidade ignora
Sophia de Mello Breyner Andresen
Silêncio
•11/11/2009 • 1 ComentárioAssim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz
Solidão
•11/11/2009 • 1 ComentárioA solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios…
Rainer Maria Rilke
Passagem de horas, Álvaro de Campos
•11/11/2009 • 1 ComentárioTrago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
Canção de vidro
•06/11/2009 • Deixe um comentárioE nada vibrou…
não se ouviu nada…
Nada…
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo…
cuidado amiga…
uma palavra só
pode tudo perder para sempre…
E é tão puro o silêncio agora !
Mário Quintana
O riso
•06/11/2009 • 1 ComentárioAquele riso foi o canto célebre
Da primeira estrela, em vão.
Milagre de primavera intacta
No sepulcro de neve
Rosa aberta ao vento, breve
Muito breve…
Não, aquele riso foi o canto célebre
Alta melodia imóvel
Gorjeio de fonte núbil
Apenas brotada, na treva…
Fonte de lábios (hora
Extremamente mágica do silêncio das aves).
Oh, música entre pétalas
Não afugentes meu amor!
Mistério maior é o sono
Se de súbito não se ouve o riso na noite.
Vinicius de Moraes
Caso Pluvioso ou Chuva Maria
•06/11/2009 • Deixe um comentárioA chuva me irritava.
Até que um dia descobri que Maria é que chovia.
A chuva era Maria.
E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sonho, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa…Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão – pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa
E um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam,
De sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso,
E era o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chuvisco.
Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando
Contra essa chuva estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual).
Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram,
E Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram.
Continentes já submergem com todos os viventes, e Maria chovendo.
Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, Maria! – e ela parou.
Carlos Drummond de Andrade
Conheço o Sal
•06/11/2009 • 1 Comentário
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
Jorge de Sena
A hora da partida
•04/11/2009 • Deixe um comentárioA hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cegueira Bendita
•04/11/2009 • Deixe um comentárioAndo perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…
Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!
Florbela Espanca
E assim sou…
•03/11/2009 • Deixe um comentárioE assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.
Fernando Pessoa, o livro do desassossego
A Fada Negra
•03/11/2009 • Deixe um comentárioUma velha de olhar agudo e frio,
De olhos sem cor, de lábios glaciais,
Tomou-me nos seus braços sepulcrais,
Tomou-me sobre o seio ermo e vazio,
E beijou-me em silêncio, longamente,
Longamente me uniu à face fria…
Oh! como a minha alma se estorcia
Sob os seus beijos, dolorosamente!
Onde os lábios pousou, a carne logo
Um farrapo de mundo, nevoento,
Mirrou-se e encaneceu-se-me o cabelo,
Meus ossos confrangeram-se. O gelo
Do seu bafo secava mais que o fogo.
Com seu olhar sem cor, que me fitava,
A Fada negra me coalhou o sangue.
Dentro em meu coração inerte e exangue
Um silêncio de morte se engolfava.
E volvendo em redor olhos absortos,
O mundo pareceu-me uma visão,
Um grande mar de névoa, de ilusão,
E a luz do sol como um luar de mortos…
Como o espectro d’um mundo já defunto,
Ruína aérea que sacode o vento,
Sem cor, sem consistência, sem conjunto…
E quanto adora quem adora o mundo,
Brilho e ventura, esperar, sorrir,
Eu vi tudo oscilar, pender, cair,
Inerte e já da cor d’um moribundo.
Dentro em meu coração, n’esse momento,
Fez-se um buraco enorme e n’esse abismo
Senti ruir não sei que cataclismo,
Como um universal desabamento…
Razão! velha de olhar agudo e cru
E de hálito mortal mais do que a peste!
Pelo beijo de gelo que me deste,
Fada negra, bendita sejas tu!
Bendita sejas tu pela agonia
E o luto funeral d’aquela hora
Em que vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas benfazejas
Do desengano… pela paz austera
D’um morto coração, que nada espera,
Nem deseja também… bendita sejas!
Antero de Quental
O Sobrevivente
•03/11/2009 • Deixe um comentárioImpossível compor um poema, a essa
altura da evolução da humanidade…
Impossível escrever em poema uma linha
que seja de verdadeira poesia…
O último trovador morreu em 1914, tinha
um nome que ninguém se lembra mais…
Há máquinas terrivelmente complicadas
para as necessidades mais simples,
Se quer fumar um charuto, aperte um
botão… paletós abotoam-se por
eletricidade… amor, se faz pelo sem fio…
Não precisa estômago para a digestão…
Um sábio declarou para o jornal que ainda
Falta muito para atingirmos um nível
razoável de cultura… mas até lá…
felizmente estarei morto.
Carlos Drumond de Andrade
Quase
•03/11/2009 • Deixe um comentárioUm pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minhalma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo … e tudo errou…
- Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…
Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…
Mário de Sá-Carneiro
Uma borboleta que voa
•01/11/2009 • 1 ComentárioUma borboleta que voa
sobre uma flor que é o seu retrato,
numa árvore,
parece que chama por ela,
parece que adeja o convite
de amarem-se.
Parece que a flor lhe responde,
que é presa, sem asas, que vive
e morre
no ramo. Parece que é triste
não ir pela brisa de amores
bem longe.
Parece que as duas se entendem,
parece que as duas deploram.
Parece.
Mas sempre há uma brisa mais forte
que leva, com as asas quebradas,
as pétalas…
Cecília Meireles
Balada do enterrado vivo
•01/11/2009 • Deixe um comentárioNa mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.
Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!
Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!
Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!
Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!
Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!
Vinicius de Moraes
Angela Adonica
•01/11/2009 • Deixe um comentário
Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.
Pablo Neruda
A veces me parece
•01/11/2009 • Deixe um comentárioA veces me parece
que estamos en el centro
de la fiesta
sin embargo
en el centro de la fiesta
no hay nadie
En el centro de la fiesta
está el vacío
Pero en el centro del vacío
hay otra fiesta.
Roberto Juarroz
Passeio
•31/10/2009 • Deixe um comentárioNão haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.
Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei
Hilda Hilst
Inicial
•31/10/2009 • 1 Comentário
O dia não é hora por hora.
É dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.
De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.
Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.
Isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.
E vive o mar.
Existem os sinos.
Pablo Neruda
Abdicação
•31/10/2009 • Deixe um comentário
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho… eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa
Por que é feia a vida?
•31/10/2009 • 1 ComentárioPor que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai!
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego,
É tão gentil e tão honesto o ar
•31/10/2009 • Deixe um comentário
É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: "Suspira!"
Dante Alighieri
Ah, Onde Estou
•29/10/2009 • 1 ComentárioAh, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser…
Alvaro de Campos
O Nosso Mundo
•28/10/2009 • 1 ComentárioEu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos…
Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagios!
A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…
Florbela Espanca
Irrita-me a felicidade…
•28/10/2009 • Deixe um comentárioIrrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem com dor de dentes que houvesse recebido uma fortuna – a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) à alegria e à dor. Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!
Fernando Pessoa, O Livro do desassossego
Poética
•28/10/2009 • Deixe um comentário
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira
Ser
•28/10/2009 • Deixe um comentárioO filho que eu não fiz
hoje seria homem
Ele corre na brisa
sem carne sem nome.
Às vezes o encontro
num encontro de nuvem
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.
Interrogo meu filho
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato ?
Lá onde eu jazia
responde-me o hálito:
não me percebeste
porém chamava-te
como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo aspira a criar-se.
o filho que eu não fiz
faz-se por si mesmo.
Carlos Drummond de Andrade
Entre os teus lábios
•28/10/2009 • Deixe um comentárioEntre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade
Primavera
•26/10/2009 • Deixe um comentárioAh! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!
Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”
E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço…
A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!
Olavo Bilac
Noite de Saudade
•26/10/2009 • Deixe um comentárioA Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura …
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura …
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura …
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem …
Talvez de ti, ó Noite! … Ou de ninguém! …
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!
Florbela Espanca
Ao longo da muralha
•26/10/2009 • Deixe um comentário
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
Barcarola
•26/10/2009 • Deixe um comentárioCantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda…
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofir
Imita a curva de um arco.
A Lua — globo de louça —
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar…
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?! Será uma
História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um requiem profundo
De tristíssimos bemóis…
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
“Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte!”
— E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou…
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!
Augusto dos Anjos
Desejo a você fruto do mato
•26/10/2009 • Deixe um comentárioDesejo a você fruto do mato,
cheiro de jardim, namoro no portão,
domingo sem chuva, segunda sem mau humor,
sábado com seu amor, filme de Carlitos,
chope com os amigos, crônica de Rubem Braga,
viver sem inimigos, filme antigo na tv,
ter uma pessoa especial, e que ela goste de você,
música de Tom com letra de Chico, frango caipira em pensão no interior,
ouvir uma palavra agradável, ter uma surpresa agradável,
ver a banda passar, noite de lua cheia,
rever uma velha amizade, te fé em Deus,
não ter que ouvir a palavra “não”,
nem nunca, nem jamais adeus.
Rir como criança, ouvir canto de passarinho,
sarar de resfriado, escrever um poema de amor que nunca será rasgado,
formar um par ideal, tomar banho de cachoeira,
pegar um bronzeado legal, aprender uma nova canção,
esperar alguém na estação, queijo com goiabada,
pôr de sol na roça, uma festa, um violão, uma seresta,
recordar um amor antigo, ter um ombro sempre amigo,
bater palmas de alegria, uma tarde amena,
calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona,
ouvir a chuva no telhado, vinho branco, Bolero de Ravel . . .
e muito carinho meu !!!
Carlos Drummond de Andrade












