António Zambujo – Pra Onde Quer Que Me Volte

•03/12/2009 • 1 Comentário

O amor Romântico

•03/12/2009 • Deixe um comentário
O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

Fernando Pessoa, o livro do desassossego

Desencontros

•03/12/2009 • Deixe um comentário
 Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussuro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentindo, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,

firmes apertos de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,

por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.

António Gedeão

Lágrimas ocultas

•03/12/2009 • Deixe um comentário
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

A hora da partida

•03/12/2009 • Deixe um comentário

A hora da partida soa quando

Escurece o jardim e o vento passa,

Estala o chão e as portas batem, quando

A noite cada nó em si deslaça.

 

A hora da partida soa quando

as árvores parecem inspiradas

Como se tudo nelas germinasse.

 

Soa quando no fundo dos espelhos

Me é estranha e longínqua a minha face

E de mim se desprende a minha vida.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

 

Ana Carolina – Força estranha

•01/12/2009 • Deixe um comentário

 

 

 

“E a coisa mais certa
De todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol”

Caetano Veloso

Dizes-me

•01/12/2009 • 2 Comentários

Dizes-me: tu és mais alguma cousa

Que uma pedra ou uma planta.

Dizes-me: sentes, pensas e sabes

Que pensas e sentes.

 

Então as pedras escrevem versos?

Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.

Mas não é a diferença que encontras;

 

Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:

Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.

Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

 

Ter consciência é mais que ter cor?

Pode ser e pode não ser.

Sei que é diferente apenas.

Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

 

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.

Sei isto porque elas existem.

Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.

Sei que sou real também.

Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,

Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.

Não sei mais nada.

 

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.

Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.

Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;

E as plantas são plantas só, e não pensadores.

Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.

 

Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,

Digo da planta, “é uma planta”,

Digo de mim, “sou eu”.

E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Fernando Pessoa

O Lamento das coisas

•01/12/2009 • Deixe um comentário

Triste, a escutar, pancada por pancada,

A sucessividade dos segundos,

Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,

O choro da Energia abandonada!

 

É a dor da Força desaproveitada,

– O cantochão dos dínamos profundos,

Que, podendo mover milhões de mundos,

Jazem ainda na estática do Nada!

 

É o soluço da forma ainda imprecisa…

Da transcendência que se não realiza…

Da luz que não chegou a ser lampejo…

 

E é, em suma, o subconsciente ai formidando

Da Natureza que parou, chorando,

No rudimentarismo do Desejo!

 

Augusto dos Anjos

Poema sobre a recusa

•01/12/2009 • 1 Comentário

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus dedos

se ter formado o afago

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva.

 

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.

 

Maria Teresa Horta

 

 

 

 

Paisagem

•30/11/2009 • Deixe um comentário

Passavam pelo ar aves repentinas

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.

 

Era o céu azul, o campo verde,a terra

escura.

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.

 

Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.

 

Eram os pinheiros onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

A sua exaltação afirmativa.

 

Era a verdade e a força do mar largo

Cuja voz ,quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Andresen

 

Nos salões do sonho

•30/11/2009 • Deixe um comentário

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos…
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio –
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber… Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

Mario Quintana

Eric Clapton – Wonderful Tonight

•28/11/2009 • 1 Comentário

Quando

•28/11/2009 • Deixe um comentário

Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir

Que me extravio às vezes ao sair

Das próprias sensações que eu recebo.

 

O ar que respiro, este licor que bebo,

Pertencem ao meu modo de existir,

E eu nunca sei como hei de concluir

As sensações que a meu pesar concebo.

 

Nem nunca, propriamente reparei,

Se na verdade sinto o que sinto. Eu

Serei tal qual pareço em mim? Serei

 

Tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,

Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos

Sonho

•28/11/2009 • 2 Comentários

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade

Solto para onde estás, e fico de ti perto!

Como, depois do sonho, é triste a realidade!

Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

 

Sonho… Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.

Noite… A amplidão se estende, iluminada e calma:

De cada estrela de ouro um anjo se debruça,

E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

 

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.

Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.

E, como sobre um leito um alvo cortinado,

Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

 

Porém, subitamente, um relâmpago corta

Todo o espaço… O rumor de um salmo se levanta

E, sorrindo, serena, aparecer à porta,

Como numa moldura a imagem de uma Santa…

 

Olavo Bilac

Além da Terra, além do Céu

•28/11/2009 • 1 Comentário

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempre amar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade

Os teus pés

•26/11/2009 • Deixe um comentário

Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.

 

Teus pés de osso arqueado,

teus pequenos pés duros.

 

Eu sei que te sustentam

e que teu doce peso

sobre eles se ergue.

 

Tua cintura e teus seios,

a duplicada purpura

dos teus mamilos,

a caixa dos teus olhos

que há pouo levantaram voo,

a larga boca de fruta,

tua rubra cabeleira,

pequena torre minha.

 

Mas se amo os teus pés

é só porque andaram

sobre a terra e sobre

o vento e sobre a água,

até me encontrarem.

 

Pablo Neruda

 

 

 

 

 

 

Joe brown – I ll see you in my dreams

•25/11/2009 • 1 Comentário

Estava eu sentado, perto do mar

•25/11/2009 • 1 Comentário

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris… Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração… Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.

Aldous Huxley

Às vezes já não consigo arrumar tudo isso.

•25/11/2009 • 1 Comentário

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo sutil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não agüentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstrações que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas podem imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

 

Herberto Helder

A casa do coração

•25/11/2009 • 1 Comentário

O coração tem dois quartos:

Moram ali, sem se ver,

Num a Dor, noutro o Prazer.

 

Quando o Prazer no seu quarto

Acorda cheio de ardor,

No seu, adormece a Dor…

 

Cuidado, Prazer! Cautela,

Canta e ri mais devagar…

Não vá a Dor acordar….

 

Friedrich Rückert

(Tradução de Antero de Quental)

Posso escrever os versos mais tristes

•25/11/2009 • 1 Comentário

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.

O meu coração procura-a, ela não está comigo.

 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.

Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.

É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,

a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

 

Pablo Neruda

 

 

 

 

Milton Nascimento (Caetano Veloso) Terceira Margem do Rio

•24/11/2009 • Deixe um comentário

Espero

•23/11/2009 • Deixe um comentário

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tempo

•23/11/2009 • Deixe um comentário

 

Tempo — definição da angústia.

Pudesse ao menos eu agrilhoar-te

Ao coração pulsátil dum poema!

Era o devir eterno em harmonia.

Mas foges das vogais, como a frescura

Da tinta com que escrevo.

Fica apenas a tua negra sombra:

— O passado,

Amargura maior, fotografada.

 

Tempo…

E não haver nada,

Ninguém,

Uma alma penada

Que estrangule a ampulheta duma vez!

 

Que realize o crime e a perfeição

De cortar aquele fio movediço

De areia

Que nenhum tecelão

É capaz de tecer na sua teia!

 

 

Miguel Torga

Assombros

•23/11/2009 • 1 Comentário

Às vezes, pequenos grandes terremotos

ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

 

Fora, não se dão conta os desatentos.

 

Entre a aorta e a omoplata rolam

alquebrados sentimentos.

 

Entre as vértebras e as costelas

há vários esmagamentos.

 

Os mais íntimos

já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado

em permanente assombro.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

O Haver

•23/11/2009 • Deixe um comentário

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

– Perdoai!eles não têm culpa de ter nascido…

 

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo

De ferir tocando, essa forte mão de homem

Cheia de mansidão para com tudo que existe.

 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos

Essa inércia cada vez maior diante do Infinito

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível

Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

 

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento

Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade

Do tempo, essa lenta decomposição poética

Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

 

Resta esse coração queimando como um círio

Numa catedral em ruínas, essa tristeza

Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria

Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história…

 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido

Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa

Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado

De pequenos absurdos, essa capacidade

De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil

E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa

Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade

De aceitá-la tal como é, e essa visão

Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior

De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável

A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade

De não querer ser príncipe senão do seu reino.

 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada

Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha

Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo

Infantil de ter pequenas coragens.

 

 

Vinicius de Moraes

Peter Gabriel & Sinead O’Connor – Blood Of Eden

•20/11/2009 • Deixe um comentário

O que penso eu?

•20/11/2009 • Deixe um comentário

O que penso eu?

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

 

“Constituição íntima das cousas”…

“Sentido íntimo do Universo”…

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

 

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

 

Alberto Caeiro

As pessoas sensíveis

•20/11/2009 • Deixe um comentário

 

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas

 

O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra

 

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”

Assim nos foi imposto

E não:

“Com o suor dos outros ganharás o pão”

 

Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheias de devoção e de proveito

 

Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem.

 

Sophia de Mello Breyner

O haver

•20/11/2009 • Deixe um comentário

 

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

 

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo

De ferir tocando, essa forte mão de homem

Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos

Essa inércia cada vez maior diante do Infinito

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível

Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

 

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento

Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade

Do tempo, essa lenta decomposição poética

Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

 

Resta esse coração queimando como um círio

Numa catedral em ruínas, essa tristeza

Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria

Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história…

 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido

Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa

Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado

De pequenos absurdos, essa capacidade

De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil

E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa

Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade

De aceitá-la tal como é, e essa visão

Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior

De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável

A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade

De não querer ser príncipe senão do seu reino.

 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada

Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha

Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo

Infantil de ter pequenas coragens.

 

Vinicius de Moraes

A vida

•20/11/2009 • Deixe um comentário

 

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;

Inútil o desejo e o sentimento…

Lançar um grande amor aos pés de d’alguém

O mesmo é que lançar flores ao vento!

 

Todos somos no mundo “Pedro Sem”,

Uma alegria é feita dum tormento,

Um riso é sempre o eco dum lamento,

Sabe-se lá um beijo de onde vem!

 

A mais nobre ilusão morre… desfaz-se…

Uma saudade morta em nós renasce

Que no mesmo momento é já perdida…

 

Amar-te a vida inteira eu não podia.

A gente esquece sempre o bem de um dia.

Que queres, meu Amor, se é isto a Vida!…

 

Florbela Espanca

Mafalda Veiga – Cada lugar teu

•19/11/2009 • Deixe um comentário

A lucidez perigosa

•19/11/2009 • Deixe um comentário

Estou sentindo uma clareza tão grande

que me anula como pessoa atual e comum:

é uma lucidez vazia, como explicar?

assim como um cálculo matemático perfeito

do qual, no entanto, não se precise.

 

Estou por assim dizer

vendo claramente o vazio.

E nem entendo aquilo que entendo:

pois estou infinitamente maior que eu mesma,

e não me alcanço.

Além do que:

que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez

pode-se tornar o inferno humano

- já me aconteceu antes.

 

Pois sei que – em termos de nossa diária

e permanente acomodação

resignada à irrealidade -

essa clareza de realidade

é um risco.

 

Apagai, pois, minha flama, Deus,

porque ela não me serve para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir

dos modos possíveis.

Eu consisto,

eu consisto,

amen.

 

Clarice Lispector

As rosas

•19/11/2009 • 1 Comentário

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O viajante

•19/11/2009 • Deixe um comentário

Eu sempre que parti fiquei nas gares

Olhando, triste, para mim…

 

Mário Quintana


 

Não só quem nos odeia ou nos inveja

•19/11/2009 • 1 Comentário

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

 

Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

 

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.

Ricardo Reis

Midsummer’s night’s dream

•19/11/2009 • Deixe um comentário

Quem o encanto dirá destas noites de estio?

Corre de estrela a estrela um leve calefrio,

Há queixas doces no ar… Eu, recolhido e só,

Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,

 

Para purificar o coração manchado,

Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado…

Que esquisita saudade! – Uma lembrança estranha

De ter vivido já no alto de uma montanha,

 

Tão alta, que tocava o céu… Belo país,

Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,

Livre da ingratidão, livre da indiferença,

No seio maternal da Ilusão e da Crença!

 

Que inexorável mão, sem piedade, cativo,

Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?

Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,

Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!

 

Por que, para uma ignota e longínqua paragem,

Astros, não me levais nessa eterna viagem?

Ah! quem pode saber de que outras vida veio?…

Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio

 

Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!

Tremo… e cuido sentir dentro de mim pesar

Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,

- O cadáver de alguém de quem carrego a vida…

Olavo Bilac

Velhinha

•19/11/2009 • Deixe um comentário

 

Se os que me viram já cheia de graça

Olharem bem de frente em mim,

Talvez, cheios de dor, digam assim:

“Já ela é velha! Como o tempo passa! …”

 

Não sei rir e cantar por mais que faça!

Ó minhas mãos talhadas em marfim,

Deixem esse fio de oiro que esvoaça!

Deixem correr a vida até o fim!

 

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!

Tenho cabelos brancos e sou crente …

Já murmuro orações … falo sozinha …

 

E o bando cor-de-rosa dos carinhos

Que tu me fazes, olho-os indulgente,

Como se fosse um bando de netinhos …

Florbela Espanca

Zeca Baleiro – Babylon

•16/11/2009 • Deixe um comentário

O amor eterno

•16/11/2009 • 1 Comentário

 

Dante se enganou: Paolo e Francesca

Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo

Juntinhos e felizes!

Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino?

Um amor que jamais pudesse terminar…

 

Mario Quintana

O Homem e a Morte

•16/11/2009 • Deixe um comentário

 

O homem já estava deitado

Dentro da noite sem cor.

Ia adormecendo, e nisto

À porta um golpe soou.

 

Não era pancada forte.

Contudo, ele se assustou,

Pois nela uma qualquer coisa

De pressago adivinhou.

 

Levantou-se e junto à porta

- Quem bate? Ele perguntou.

- Sou eu, alguém lhe responde.

- Eu quem? Torna. – A Morte sou.

 

Um vulto que bem sabia

Pela mente lhe passou:

Esqueleto armado de foice

Que a mãe lhe um dia levou.

 

Guardou-se de abrir a porta,

Antes ao leito voltou,

E nele os membros gelados

Cobriu, hirto de pavor.

 

Mas a porta, manso, manso,

Se foi abrindo e deixou

Ver – uma mulher ou anjo?

Figura toda banhada

 

De suave luz interior.

A luz de quem nesta vida

Tudo viu, tudo perdoou.

Olhar inefável como

 

De quem ao peito o criou.

Sorriso igual ao da amada

Que amara com mais amor.

- Tu és a Morte? Pergunta.

 

E o Anjo torna: – A Morte sou!

Venho trazer-te descanso

Do viver que te humilhou.

-Imaginava-te feia,

 

Pensava em ti com terror…

És mesmo a Morte? Ele insiste.

- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,

Mestra que jamais engana,

 

A tua amiga melhor.

E o Anjo foi-se aproximando,

A fronte do homem tocou,

Com infinita doçura

 

As magras mãos lhe cerrou…

Era o carinho inefável

De quem ao peito o criou.

Era a doçura da amada

Que amara com mais amor.

 

Manuel Bandeira

Adeus, adeus

•16/11/2009 • 1 Comentário

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

gastámos tudo menos o silêncio.

gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

e eu acreditava!

acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

 

mas isso era no tempo dos segredos,

no tempo em que o teu corpo era um aquário,

no tempo em que os teus olhos eram peixes verdes.

 

hoje são apenas os teus olhos.

é pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

já gastámos as palavras.

quando agora digo: meu amor…

já não se passa absolutamente nada.

 

e, no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

 

não temos nada que dar.

dentro de ti

não há nada que me peça água.

o passado é inútil como um trapo.

e já te disse: as palavras estão gastas.

 

adeus.

 

Eugénio de Andrade

No ponto onde o silêncio

•16/11/2009 • 1 Comentário

No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen

ANDREA BOCELLI – L’APPUNTAMENTO

•13/11/2009 • Deixe um comentário

Dai-me rosas e lírios

•13/11/2009 • 1 Comentário

Dai-me rosas e lírios,

Dai-me flores, muitas flores

Quaisquer flores, logo que sejam muitas…

Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

 

Em me dardes muitas flores,

Nem isso… Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço

Que me deis flores…

Sejam essas as flores que me deis…

 

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,

Sob o céu cheio de sol!

A minha agonia da realidade lúcida!

Desejo de chorar absolutamente como uma criança

 

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,

E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,

Estando eu a chorar naquela posição.

 

O homem que apara o lápis à janela do escritório

Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.

Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!

É tão fantástico que estas coisas sejam reais!

Olho para ele até esquecer o sol e o céu.

E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

 

A flor caída no chão.

A flor murcha (rosa branca amarelecendo)

Caída no chão…

Qual é o sentido da vida?

 

Fernando Pessoa

 

 

A uma mulher

•13/11/2009 • Deixe um comentário

Para tristezas, para dor nasceste.

Podia a sorte pôr-te o berço estreito

N’algum palácio e ao pé de régio leito,

Em vez d’este areal onde cresceste:

 

Podia abrir-te as flores  com que veste

As ricas e as felizes  n’esse peito;

Fazer-te… o que a Fortuna há sempre feito…

Terias sempre a sorte que tiveste!

 

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,

Que não são d’este mundo e onde eu leio

Uns mistérios tão tristes e infinitos,

 

Tia voz rara e esse ar vago e esquecido,

Tudo me diz a mim, e assim o creio,

Que para isto só tinhas nascido!

 

Antero de Quental

Ou Isto Ou Aquilo

•13/11/2009 • 1 Comentário

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Cecília Meireles

Poema

•13/11/2009 • Deixe um comentário

O grilo procura

no escuro

o mais puro diamante perdido.

 

O grilo

com as suas frágeis britadeiras de vidro

perfura

 

as implacáveis solidões noturnas.

 

E se o que tanto busca só existe

em tua limpida loucura

 

- que importa? -

 

isso

exatamente isso

é o teu diamante mais puro!

 

Mario Quintana

Sob o chuveiro amar

•13/11/2009 • 1 Comentário

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,

ou na banheira amar, de água vestidos,

amor escorregante, foge, prende-se,

torna a fugir, água nos olhos, bocas,

dança, navegação, mergulho, chuva,

essa espuma nos ventres, a brancura

triangular do sexo — é água, esperma,

é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

 

Carlos Drummond de Andrade

Vinte e Nove – Legião Urbana

•11/11/2009 • 1 Comentário