Simon & Garfunkel Sound Of Silence

•09/02/2010 • Deixe um comentário

O Nosso

•09/02/2010 • 2 Comentários

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.

Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.

As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.

Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.

A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.


Jorge Luis Borges

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

•08/02/2010 • 3 Comentários

O que penso eu?

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"…
"Sentido íntimo do Universo"…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

EM DESPEDIDA, PROIBINDO O PRANTO

•08/02/2010 • 1 Comentário

Como esses santos homens que se apagam
    Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
    Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
    Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
    Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
    E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
    Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
    (Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
    Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
    Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
    Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
    Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
    Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
    Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
    Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
    Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
    E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
    Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
    Encontrar meu final em meu começo.
 

John Donne

Ney Matogrosso – Mal Necessário

•06/02/2010 • 1 Comentário

Não

•06/02/2010 • Deixe um comentário

Não, não é cansaço…

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

E um domingo às avessas

 

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

 

Não. Cansaço por quê?

É uma sensação abstrata

Da vida concreta —

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

 

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como…

Sim, ou por sofrer como…

Isso mesmo, como…

Como quê?…

 

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque ouço, vejo.

Confesso: é cansaço!…

 

Álvaro de Campos

Ao Longo Das Janelas Mortas

•06/02/2010 • Deixe um comentário

Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!…Será
Que a minha perna é de pau?

Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrivel!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos,

Nosso Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.

Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa

Esta carcaça miserável de sonho…

Mário Quintana

Timidez

•06/02/2010 • Deixe um comentário

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

 

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

 

e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

 

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,

 

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

 

Cecília Meireles

Aspiração

•06/02/2010 • Deixe um comentário

Meus dias vão correndo vagarosos

Sem prazer e sem dor, e até parece

Que o foco interior já desfalece

E vacila com raios duvidosos.

 

É bela a vida e os anos são formosos,

E nunca ao peito amante o amor falece…

Mas, se a beleza aqui nos aparece,

Logo outra lembra de mais puros gozos.

 

Minh’alma, ó Deus! a outros céus aspira:

Se um momento a prendeu mortal beleza,

É pela eterna pátria que suspira…

 

Porém do pressentir dá-me a certeza,

Dá-me! e sereno, embora a dor me fira,

Eu sempre bendirei esta tristeza!

 

Antero de Quental

Ira! – Para Ser Humano

•04/02/2010 • Deixe um comentário

O livro do desassossego (278), Fernando Pessoa

•03/02/2010 • Deixe um comentário

A maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. A maioria da gente é outra gente, disse Oscar Wilde, e disse bem. Uns gastam a vida na busca de qualquer coisa que não querem; outros se empregam na busca do que querem e lhes não serve; outros, ainda, se perdem.

 

Mas a maioria é feliz e goza a vida sem isso valer. Em geral, o homem chora pouco, e, quando se queixa, é a sua literatura. O pessimismo tem pouca viabilidade como fórmula democrática. Os que choram o mal do mundo são isolados – não choram senão o próprio. Um Leopardi, um Antero não tem amado ou amante? O universo é um mal. Um Vigny é mal ou pouco amado? O mundo é um cárcere. Um Chateaubriand sonha mais que o possível? A vida humana é tédio. Um Job é coberto de bolhas? A terra está coberta de bolhas. Pisam os calos do triste? Ai dos pés dos sóis e das estrelas.

 

Alheia a isto, e chorando só o preciso e no menos tempo que pode – quando lhe morre o filho que esquecerá pelos anos fora, salvo nos aniversários; quando perde dinheiro e chora enquanto não arranja outro, ou se não adapta ao estado de perda – a humanidade continua digerindo e amando.

 

A vitalidade recupera e reanima. Os mortos ficam enterrados. As perdas ficam perdidas.

Os Retratos

•03/02/2010 • Deixe um comentário

Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo

Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…

Dessas que a gente inventava
enganar a solidão dos caminhos sem lua.

Mário Quintana

Adeus

•03/02/2010 • Deixe um comentário

Adeus! e para sempre embora,

Que seja para nunca mais:

Sei teu rancor – mas contra ti

Não me rebelarei jamais.

 

Visses nu meu peito, onde a fronte

Tu descansavas mansamente

E te tomava um calmo sono

Que perderás completamente:

 

Que cada fundo pensamento

No coração pudesses ver!

Que estava mal deixá-lo assim

Por fim virias a saber.

 

Louve-te o mundo por teu ato,

Sorria ele ante a ação feia:

Esse louvor deve ofender-te,

Pois funda-se na dor alheia.

 

Desfigurassem-me defeitos:

Mão não havia menos dura

Que a de quem antes me abraçava

Que me ferisse assim sem cura?

 

Não te iludas contudo: o amor

Pode afundar-se devagar;

Porém não pode corações

Um golpe súbito apartar.

 

O teu retém a sua vida,

E o meu, também, bata sangrando;

E a eterna idéia que me aflige

É que nos vermos não tem quando.

 

Digo palavras de tristeza

Maior que os mortos lastimar;

Hão de as manhãs, pois viveremos,

De um leito viúvo despertar.

 

E ao achares consolo, quando

A nossa filha balbuciar,

Ensiná-la-ás a dizer “Pai”,

Se o meu desvelo vai faltar?

 

Quando as mãozinhas te apertarem

E ela teu lábio -houver beijado,

Pensa em mim, que te bendirei

Teu amor ter-me-ia abençoado.

 

Se parecerem os seus traços

Com os de quem podes não mais ver,

Teu coração pulsará suave,

E fiel a mim há de tremer.

 

Talvez conheças minhas faltas,

Minha loucura ninguém sabe;

Minha esperança, aonde tu vás,

Murcha, mas vai, que ela em ti cabe.

 

Abalou-se o que sinto; o orgulho,

Que o mundo não pôde curvar,

Curvou-se a ti: se a abandonaste,

Minha alma vejo-a a me deixar.

 

Tudo acabou – é vão falar -,

Mais vão ainda o que eu disser;

Mas forçam rumo os pensamentos

Que não podemos empecer.

 

Adeus! assim de ti afastado,

Cada laço estreito a perder,

O coração só e murcho e seco,

Mais que isto mal posso morrer.

 

Lord Byron

 

 

Quando olho para mim não me percebo

•02/02/2010 • Deixe um comentário

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Não sei bem se sou eu quem em mim sente.


Álvaro de Campos

Poema de circunstância

•02/02/2010 • Deixe um comentário

Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O Arranha-Céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros,
nos tiranossauros,
Que mais sei eu…
Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os
arranha-céus.
Daqui
Do fundo
Das suas goelas,
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas
empinadas gargantas ressecas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
À janela aonde trabalho
Há uma grande árvore…
Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore…Enquanto há verde,
Pastai, pastai, olhos meus…
Uma grande árvore muito verde…Ah,
Todos os meus olhares são de adeus
Como o último olhar de um condenado!


Mario Quintana

Amor meu, ao fechar esta porta noturna…

•01/02/2010 • Deixe um comentário

Amor meu, ao fechar esta porta noturna

te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:

fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,

estende-te em meu sangue como num amplo rio.

 

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo

no saco de cada dia do passado,

adeus a cada rio de relógio ou laranja,

saúde, oh sombra, intermitente companheira!

 

Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,

uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,

somos o matrimônio da noite no sangue.

 

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,

mas é teu coração o que reparte

em meu peito os dons da aurora.

 

Pablo Neruda


 

O Chão É Cama

•01/02/2010 • 1 Comentário

O chão é cama para o amor urgente,

amor que não espera ir para a cama.

Sobre tapete ou duro piso, a gente

compõe de corpo e corpo a úmida trama.

 

E para repousar do amor, vamos à cama.

 

 

Carlos Drummond de Andrade

"Isn’t it a Pity" by Eric Clapton

•31/01/2010 • Deixe um comentário

A estrela

•31/01/2010 • Deixe um comentário

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Mudam-se os tempos…

•31/01/2010 • Deixe um comentário
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve -, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.
Luíz Vaz de Camões

Soneti LXXXVIII

•31/01/2010 • Deixe um comentário

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.

William Shakespeare

IRA! e SKANK – UM GIRASSOL DA COR DE SEU CABELO

•28/01/2010 • Deixe um comentário

Conversa às 3h30 da madrugada

•28/01/2010 • Deixe um comentário

Às 3h30 da madrugada
uma porta se abre
e há passos na entrada
movendo um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e responde.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com rolos no cabelo
e num robe de seda
estampado de coelhos e passarinhos

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e de canções românticas,
e depois de alguns copos
ela não se preocupa em cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

Charles Bukowski

Canção Para Uma Valsa Lenta

•28/01/2010 • Deixe um comentário

Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!

 

Mário Quintana

Sofro, Lídia, do medo do destino.

•27/01/2010 • Deixe um comentário

Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena coisa de onde pode
Brotar uma nova ordem em minha vida,
Lídia, me aterra.

Qualquer coisa, qual seja, que transforme
Meu plano curso da existência, embora
Para melhores coisas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os Deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até o fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa ’stima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.

26-5-1917

Ricardo Reis

O inseto

•27/01/2010 • 2 Comentários

Das tuas ancas aos teus pés

quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um inseto.

 

Percorro estas colinas,

são da cor da aveia,

têm trilhos estreitos

que só eu conheço,

centimetros queimados,

pálidas perspectivas.

 

Há aqui um monte.

Nunca dele sairei.

Oh que musgo gigante!

 

E uma cratera, uma rosa

de fogo humedecido!

Pelas tuas pernas desço

tecendo uma espiral

ou adormecendo na viagem

e alcanço os teus joelhos

duma dureza redonda

como os ásperos cumes

dum claro continente.

 

Para teus pés resvalo

para as oito aberturas

dos teus dedos agudos,

lentos, peninsulares,

e deles para o vazio

do lençol branco

caio, procurando cego

e faminto teu contorno

de vaso escaldante!

 

Pablo Neruda

Ah, o diferente, esse ser especial!

•26/01/2010 • 1 Comentário

Ah, o diferente, esse ser especial!
Diferente não é quem pretenda ser.

Esse é um imitador do que
ainda não foi imitado,
nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado
de alguns mais e de alguns menos em hora,
momento e lugar errados para os outros.

Que riem de inveja de não serem assim.

E de medo de não agüentar,
caso um dia venham a ser.
O diferente é um ser sempre
mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido
por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato
onde está um diferente,
talentos são rechaçados;
vitórias, adiadas;
esperanças, mortas.

Um diferente medroso, este sim,
acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes
percebem porque os outros
não os entendem.

Os diferentes raivosos
acabam tendo razão sozinhos,
contra o mundo inteiro.

Diferente que se preza entende
o porquê de quem o agride.

Se o diferente se mediocrizar,
mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar
- mesmo sem querer –
alterando algo, ameaçando rebanhos,
carneiros e pastores.
O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual,
a inveja do comum, o ódio do mediano.

O verdadeiro diferente
sabe que nunca tem razão,
mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo,
já no primário, onde os demais, de mãos dadas,
e até mesmo alguns adultos,
por omissão, se unem para transformar
o que é peculiaridade e potencial
em aleijão e caricatura.
O que é percepção aguçada em:
“Puxa, fulano, como você é complicado”.
O que é o embrião de um estilo próprio em:
“Você não está vendo como todo
mundo faz?”

O diferente carrega desde cedo apelidos
e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes do que o mundo
se transformaram (e se transformam)
nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso.
O que sente antes mesmo dos demais
começarem a perceber.
Diferente é o que se emociona
enquanto todos em torno,
agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco;
chora onde outros xingam;
estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas.
Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo
onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas que
só ele sabe importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol,
porque gosta mais de jogar do que de ganhar.

Ele aprendeu a superar riso,
deboche, escárnio,
e consciência dolorosa de
que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados,
magros demais, inteligentes em excesso,
bons demais para aquele cargo,
excepcionais, narigudos, barrigudos,
joelhudos, de pé grande, de roupas erradas,
cheios de espinhas, de mumunha,
de malícia ou de baba.

Aí estão, doendo e doendo,
mas procurando ser,
conseguindo ser,
sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes
que eles guardam para os pouco capazes
de os sentir e entender.
Nessas moradas estão
tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente forte
para suportá-lo depois.

 

Artur da Távola

Sara Tavares – Ponto de Luz

•24/01/2010 • Deixe um comentário

Palavras

•24/01/2010 • 2 Comentários

Palavras? Sim. De ar

e perdidas no ar.

Deixa que eu me perca entre palavras,

deixa que eu seja o ar entre esses lábios,

um sopro erramundo sem contornos,

breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

 

Octavio Paz

Os olhos

•23/01/2010 • 2 Comentários

Se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor

o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela

por isso os escolho sempre

tenho os olhos feitos à medida da tua cara

e só tenho olhos para ti

quando não estás sou invisível e quase invisual

a visão não me serve de nada

vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco

é desfocado

é esbatido

e sem chama

e sem cheiro

contigo cheira bem

sabe bem

ouve bem o que digo porque é sincero

porque se não fosse todo eu era falso

cada falso que há aí merecia cadeia ou morte

mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço

[para me matar de felicidade

e só te quero a ti

e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente

com o céu mais estrelado

com a lua mais cúmplice

com os gestos mais carinhosos

e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso

e vou para te beijar mas não o faço

hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez

e eu deixo

para eles não chorarem muito

 

João Negreiros

Simply Red – The Air That I Breathe

•22/01/2010 • Deixe um comentário

Da mais alta janela

•22/01/2010 • 1 Comentário

Da mais alta janela da minha casa

Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a Humanidade.

 

E não estou alegre nem triste.

Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário

Como a flor não pode esconder a cor,

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.

 

Ei-los que vão já longe como que na diligência

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

 

Quem sabe quem os lerá?

Quem sabe a que mãos irão?

 

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.

Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água não era ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

 

Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

 

Passo e fico, como o Universo.

 

Alberto Caeiro

Ao tempo

•22/01/2010 • 2 Comentários

Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,

 

Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida

 

A um tempo aproximando e distanciando…

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando andando andando andando andando

 

Tempo, vais para diante ou para trás?

 

Dante Milano

O Jardim e a casa

•22/01/2010 • 1 Comentário

 

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.

Continuam as noites e os poentes

Que escorreram na casa e no jardim,

Continuam as vozes diferentes

 

Que intactas no meu ser estão suspensas.

Trago o terror e trago a claridade,

E através de todas as presenças

Caminho para a única unidade.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Bela e o Dragão

•22/01/2010 • 1 Comentário

 

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos…

Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA

DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete

agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de

boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão

te seguirá por toda parte como um cachorrinho…

 

Mario Quintana

IRA! – Vida Passageira

•19/01/2010 • 1 Comentário

Quem disse

•19/01/2010 • 1 Comentário

Quem disse

que esta ausência te devia?

 

Quem pensou

que esta denúncia se enganava?

 

Que um dia era pior

que outro dia

Que à noite era melhor

porque senhava?

 

Quem disse

que esta dor te pertencia?

 

Quem pensou que este amor

me perturbava?

 

Que o longe era mais perto

se fugias

Que o dentro era mais longe

porque estavas?

 

Quem disse

que este ardor te evidencia?

 

Quem pensou que esta pena

me cansava?

 

Que calar era pior

se te despia

Que gritar era melhor

se te largava?

 

Quem disse

que esta paixão me curaria?

 

Quem pensou que esta loucura

me passava?

 

Que deixar-te era paz

porque corria

Que querer-te era mau

porque te amava?

 

Quem disse

que esta paixão te espantaria?

 

Quem pensou que esta saudade

me rasgava?

 

Que tudo era diferente

se te via

Que o pior era saber

que aqui não estavas?

 

Quem disse

que esta ternura te devia?

 

Quem pensou que este saber

se enganava?

 

Neste langor crescente

que desvia

Neste entender de nós

que cintilava?

 

Maria Teresa Horta

Nunca mais

•19/01/2010 • Deixe um comentário

Nunca mais

Caminharás nos caminhos naturais.

 

Nunca mais te poderás sentir

Invulnerável, real e densa -

Para sempre está perdido

O que mais do que tudo procuraste

A plenitude de cada presença.

 

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

 

Sophia de Mello Breyner

Alma perdida

•19/01/2010 • Deixe um comentário

Toda esta noite o rouxinol chorou,

Gemeu, rezou, gritou perdidamente!

Alma de rouxinol, alma da gente,

Tu és, talvez, alguém que se finou!

 

Tu és, talvez, um sonho que passou,

Que se fundiu na Dor, suavemente…

Talvez sejas a alma, alma doente

D’alguém que quis amar e nunca amou!

 

Toda a noite choraste…e eu chorei

Talvez porque, ao ouvir-te, advinhei

Que ninguém é mais triste do que nós!

 

Contaste tanta coisa à noite calma,

Que eu pensei que tu eras a minh’alma

Que chorasse perdida em tua voz!…

 

Florbela Espanca

Elton John – Believe

•17/01/2010 • Deixe um comentário

Eu, eu mesmo

•17/01/2010 • 1 Comentário

Eu, eu mesmo…

Eu, eu mesmo…

Eu, cheio de todos os cansaços

Quantos o mundo pode dar.

 

Eu…

Afinal tudo, porque tudo é eu,

E até as estrelas, ao que parece,

Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…

Que crianças não sei…

 

Eu…

Imperfeito ? Incógnito ? Divino ?

Não sei…

 

Eu…

Tive um passado ? Sem dúvida…

Tenho um presente ? Sem dúvida…

Terei um futuro ? Sem dúvida…

A vida que pare de aqui a pouco…

 

Mas eu, eu…

Eu sou eu,

Eu fico eu,

Eu…

 

Álvaro de Campos

Bem, hoje

•17/01/2010 • Deixe um comentário

Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração

Quanto não sou, quanto não posso ser,

Quanto, se o for, serei em vão.

 

Hoje, vou confessar, quero sentir-me

Definitivamente ser ninguém,

E de mim mesmo, altivo, demitir-me

Por não ter procedido bem.

 

Falhei a tudo, mas sem galhardias,

Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias

A flor de parecer feliz.

 

Mas fica sempre, porque o pobre é rico

Em qualquer cousa, se procurar bem,

A grande indiferença com que fico.

Escrevo-o para o lembrar bem.

 

Fernando Pessoa

Vive, dizes

•17/01/2010 • Deixe um comentário

Vive, dizes, no presente;

Vive só no presente.

 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;

Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

 

O que é o presente?

É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.

É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.

Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

 

Não quero incluir o tempo no meu esquema.

Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas

como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

 

Eu nem por reais as devia tratar.

Eu não as devia tratar por nada.

 

Eu devia vê-las, apenas vê-las;

Vê-las até não poder pensar nelas.

Vê-las sem tempo, nem espaço.

Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

 

Alberto Caeiro

Enya – May it be

•15/01/2010 • Deixe um comentário

Nos salões do sonho

•15/01/2010 • Deixe um comentário

 

Mas vocês não repararam, não?!

Nos salões do sonho nunca há espelhos…

Por quê?

Será porque somos tão nós mesmos

Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?

Ou, então

- e aqui começa um arrepio -

Seremos acaso tão outros?

Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,

Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,

Se espelhos houvesse!

Ninguém pode saber… Só o diria

Mas nada diz,

Por motivos que só ele conhece,

O misterioso Cenarista dos Sonhos!

Mario Quintana

Tudo

•15/01/2010 • 1 Comentário

 

Tudo me é uma dança em que procuro

A posição ideal,

Seguindo o fio dum sonhar obscuro

Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar

Tantos gestos perdidos

Mas a alma, dispersa nos sentidos,

Sobe os degraus do ar…

Sophia de Mello Breyner

Motivo

•13/01/2010 • 1 Comentário

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E sei que um dia estarei mudo:

- mais nada

 

Cecília Meireles

EXCESSO

•13/01/2010 • Deixe um comentário

Quando se quer
da distância fazer
perto.

Quando se inventa
do outro
a melhor parte.

Quando se toma a lonjura
e por certo, se tem do incerto
aquilo que não sabe.

Quando se inventa na espera
o que adivinha
ser pelo excesso a linha do baraço.

Quando a ausência vacila
no silêncio e traz de volta
o fogo no regaço.

Maria Teresa Horta

Tenta Esquecer-me

•13/01/2010 • 1 Comentário

Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,

Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!

E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios

É não poder parar!

Mário Quintana


 

Sean Connery – In My Life

•11/01/2010 • Deixe um comentário