ANDREA BOCELLI – L’APPUNTAMENTO

•13/11/2009 • Deixe um comentário

Dai-me rosas e lírios

•13/11/2009 • Deixe um comentário

Dai-me rosas e lírios,

Dai-me flores, muitas flores

Quaisquer flores, logo que sejam muitas…

Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

 

Em me dardes muitas flores,

Nem isso… Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço

Que me deis flores…

Sejam essas as flores que me deis…

 

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,

Sob o céu cheio de sol!

A minha agonia da realidade lúcida!

Desejo de chorar absolutamente como uma criança

 

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,

E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,

Estando eu a chorar naquela posição.

 

O homem que apara o lápis à janela do escritório

Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.

Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!

É tão fantástico que estas coisas sejam reais!

Olho para ele até esquecer o sol e o céu.

E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

 

A flor caída no chão.

A flor murcha (rosa branca amarelecendo)

Caída no chão…

Qual é o sentido da vida?

 

Fernando Pessoa

 

 

A uma mulher

•13/11/2009 • Deixe um comentário

Para tristezas, para dor nasceste.

Podia a sorte pôr-te o berço estreito

N’algum palácio e ao pé de régio leito,

Em vez d’este areal onde cresceste:

 

Podia abrir-te as flores  com que veste

As ricas e as felizes  n’esse peito;

Fazer-te… o que a Fortuna há sempre feito…

Terias sempre a sorte que tiveste!

 

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos,

Que não são d’este mundo e onde eu leio

Uns mistérios tão tristes e infinitos,

 

Tia voz rara e esse ar vago e esquecido,

Tudo me diz a mim, e assim o creio,

Que para isto só tinhas nascido!

 

Antero de Quental

Ou Isto Ou Aquilo

•13/11/2009 • 1 Comentário

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Cecília Meireles

Poema

•13/11/2009 • Deixe um comentário

O grilo procura

no escuro

o mais puro diamante perdido.

 

O grilo

com as suas frágeis britadeiras de vidro

perfura

 

as implacáveis solidões noturnas.

 

E se o que tanto busca só existe

em tua limpida loucura

 

- que importa? -

 

isso

exatamente isso

é o teu diamante mais puro!

 

Mario Quintana

Sob o chuveiro amar

•13/11/2009 • 1 Comentário

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,

ou na banheira amar, de água vestidos,

amor escorregante, foge, prende-se,

torna a fugir, água nos olhos, bocas,

dança, navegação, mergulho, chuva,

essa espuma nos ventres, a brancura

triangular do sexo — é água, esperma,

é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

 

Carlos Drummond de Andrade

Vinte e Nove – Legião Urbana

•11/11/2009 • 1 Comentário

De um amor morto

•11/11/2009 • 2 Comentários

De um amor morto fica
um pesado tempo quotidiano
onde os gestos se esbarram ao longo do ano 

De um amor morto não fica
nenhuma memória
o passado se rende
o presente o devora
e os navios do tempo
agudos e lentos
o levam embora

Pois um amor morto não deixa
em nós seu retrato
de infinita demora
é apenas um facto
que a eternidade ignora

Sophia de Mello Breyner Andresen

Silêncio

•11/11/2009 • 1 Comentário

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce e se adelgaça

até que noutra música emudece,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, aguda torre, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto sobe caem

recordações, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

o grito se desvanece:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

 

Octavio Paz

Solidão

•11/11/2009 • 1 Comentário

A solidão é como uma chuva. 
Ergue-se do mar ao encontro das noites; 
de planícies distantes e remotas 
sobe ao céu, que sempre a guarda. 
E do céu tomba sobre a cidade. 

Cai como chuva nas horas ambíguas, 
quando todas as vielas se voltam para a manhã 
e quando os corpos, que nada encontraram, 
desiludidos e tristes se separam; 
e quando aqueles que se odeiam 
têm de dormir juntos na mesma cama: 

então, a solidão vai com os rios… 

Rainer Maria Rilke

Passagem de horas, Álvaro de Campos

•11/11/2009 • 1 Comentário

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Texto Completo aqui

Echo & The Bunnymen – Bring On The Dancing Horses

•06/11/2009 • Deixe um comentário

Canção de vidro

•06/11/2009 • Deixe um comentário

E nada vibrou…

não se ouviu nada…

Nada…

 

Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.

 

Cala, amigo…

cuidado amiga…

uma palavra só

pode tudo perder para sempre…

 

E é tão puro o silêncio agora !

 

Mário Quintana

O riso

•06/11/2009 • 1 Comentário

Aquele riso foi o canto célebre
Da primeira estrela, em vão.
Milagre de primavera intacta
No sepulcro de neve
Rosa aberta ao vento, breve
Muito breve…

Não, aquele riso foi o canto célebre
Alta melodia imóvel
Gorjeio de fonte núbil
Apenas brotada, na treva…
Fonte de lábios (hora
Extremamente mágica do silêncio das aves).

Oh, música entre pétalas
Não afugentes meu amor!
Mistério maior é o sono
Se de súbito não se ouve o riso na noite.

Vinicius de Moraes

Caso Pluvioso ou Chuva Maria

•06/11/2009 • Deixe um comentário

A chuva me irritava.

Até que um dia descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria.

E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura… Maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sonho, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa…Nossa!

Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão – pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d’água gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa

E um rio se formou, ou mar, não sei, sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam, as fontes de Maria mais chuvavam,

De sorte que com pouco, e sem recurso, as coisas se lançaram no seu curso,

E era o mundo molhado e sovertido sob aquele sinistro e atro chuvisco.

Os seres mais estranhos se juntando na mesma aquosa pasta iam clamando

Contra essa chuva estúpida e mortal catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram. Que nada! As cordas d’água mais deliram,

E Maria, torneira desatada, mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram.

Continentes já submergem com todos os viventes, e Maria chovendo.

Eis que a essa altura, delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência, comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou: Não chove mais, Maria! – e ela parou.

 

Carlos Drummond de Andrade

Conheço o Sal

•06/11/2009 • 1 Comentário

 

Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousando em suor nocturno.

 

Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

 

Conheço o sal dos teus cabelos negros

ou louros ou cinzentos que se enrolam

neste dormir de brilhos azulados.

 

Conheço o sal que resta em minha mãos

como nas praias o perfume fica

quando a maré desceu e se retrai.

 

Conheço o sal da tua boca, o sal

da tua língua, o sal de teus mamilos,

e o da cintura se encurvando de ancas.

 

A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.

 

Jorge de Sena

 

 

Zucchero – Il volo

•04/11/2009 • Deixe um comentário

A hora da partida

•04/11/2009 • Deixe um comentário

A hora da partida soa quando

Escurece o jardim e o vento passa,

Estala o chão e as portas batem, quando

A noite cada nó em si deslaça.

 

A hora da partida soa quando

as árvores parecem inspiradas

Como se tudo nelas germinasse.

 

Soa quando no fundo dos espelhos

Me é estranha e longínqua a minha face

E de mim se desprende a minha vida.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

 

Cegueira Bendita

•04/11/2009 • Deixe um comentário

Ando perdida nestes sonhos verdes

De ter nascido e não saber quem sou,

Ando ceguinha a tatear paredes

E nem ao menos sei quem me cegou!

 

Não vejo nada, tudo é morto e vago…

E a minha alma cega, ao abandono

Faz-me lembrar o nenúfar dum lago

´Stendendo as asas brancas cor do sonho…

 

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo

E não ver nada nesse mar sem fundo,

Poetas meus irmãos, que triste sorte!…

 

E chamam-nos a nós Iluminados!

Pobres cegos sem culpas, sem pecados,

A sofrer pelos outros té à morte!

 

Florbela Espanca

E assim sou…

•03/11/2009 • Deixe um comentário

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.

Fernando Pessoa, o livro do desassossego

A Fada Negra

•03/11/2009 • Deixe um comentário

Uma velha de olhar agudo e frio,

De olhos sem cor, de lábios glaciais,

Tomou-me nos seus braços sepulcrais,

Tomou-me sobre o seio ermo e vazio,

 

E beijou-me em silêncio, longamente,

Longamente me uniu à face fria…

Oh! como a minha alma se estorcia

Sob os seus beijos, dolorosamente!

 

Onde os lábios pousou, a carne logo

Um farrapo de mundo, nevoento,

Mirrou-se e encaneceu-se-me o cabelo,

Meus ossos confrangeram-se. O gelo

 

Do seu bafo secava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava,

A Fada negra me coalhou o sangue.

Dentro em meu coração inerte e exangue

 

Um silêncio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos,

O mundo pareceu-me uma visão,

Um grande mar de névoa, de ilusão,

 

E a luz do sol como um luar de mortos…

Como o espectro d’um mundo já defunto,

Ruína aérea que sacode o vento,

Sem cor, sem consistência, sem conjunto…

 

E quanto adora quem adora o mundo,

Brilho e ventura, esperar, sorrir,

Eu vi tudo oscilar, pender, cair,

Inerte e já da cor d’um moribundo.

 

Dentro em meu coração, n’esse momento,

Fez-se um buraco enorme  e n’esse abismo

Senti ruir não sei que cataclismo,

Como um universal desabamento…

 

Razão! velha de olhar agudo e cru

E de hálito mortal mais do que a peste!

Pelo beijo de gelo que me deste,

Fada negra, bendita sejas tu!

 

Bendita sejas tu pela agonia

E o luto funeral d’aquela hora

Em que vi baquear quanto se adora,

Vi de que noite é feita a luz do dia!

 

Pelo pranto e as torturas benfazejas

Do desengano… pela paz austera

D’um morto coração, que nada espera,

Nem deseja também… bendita sejas!

 

Antero de Quental

O Sobrevivente

•03/11/2009 • Deixe um comentário

Impossível compor um poema, a essa

altura da evolução da humanidade…

Impossível escrever em poema uma linha

que seja de verdadeira poesia…

 

O último trovador morreu em 1914, tinha

um nome que ninguém se lembra mais…

Há máquinas terrivelmente complicadas

para as necessidades mais simples,

 

Se quer fumar um charuto, aperte um

botão… paletós abotoam-se por

eletricidade… amor, se faz pelo sem fio…

Não precisa estômago para a digestão…

 

Um sábio declarou para o jornal que ainda

Falta muito para atingirmos um nível

razoável de cultura… mas até lá…

felizmente estarei morto.

 

Carlos Drumond de Andrade

Quase

•03/11/2009 • Deixe um comentário

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minhalma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

 

De tudo houve um começo … e tudo errou…

- Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou…

 

Momentos de alma que desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

 

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

 

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

 

Um pouco mais de sol – e fora brasa,

Um pouco mais de azul – e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

 

Listas de som avançam para mim a fustigar-me

Em luz.

Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…

Os braços duma cruz

Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

 

Mário de Sá-Carneiro

 

 

CHICO BUARQUE & MILTON NASCIMENTO – O QUE SERÁ

•01/11/2009 • Deixe um comentário

Uma borboleta que voa

•01/11/2009 • 1 Comentário

Uma borboleta que voa

sobre uma flor que é o seu retrato,

numa árvore,

parece que chama por ela,

parece que adeja o convite

de amarem-se.

 

Parece que a flor lhe responde,

que é presa, sem asas, que vive

e morre

no ramo. Parece que é triste

não ir pela brisa de amores

bem longe.

 

Parece que as duas se entendem,

parece que as duas deploram.

Parece.

 

Mas sempre há uma brisa mais forte

que leva, com as asas quebradas,

as pétalas…

 

Cecília Meireles

Balada do enterrado vivo

•01/11/2009 • Deixe um comentário

Na mais medonha das trevas

Acabei de despertar

Soterrado sob um túmulo.

De nada chego a lembrar

Sinto meu corpo pesar

Como se fosse de chumbo.

Não posso me levantar

Debalde tentei clamar

Aos habitantes do mundo.

Tenho um minuto de vida

Em breve estará perdida

Quando eu quiser respirar.

Meu caixão me prende os braços.

Enorme, a tampa fechada

Roça-me quase a cabeça.

Se ao menos a escuridão

Não estivesse tão espessa!

Se eu conseguisse fincar

Os joelhos nessa tampa

E os sete palmos de terra

Do fundo à campa rasgar!

Se um som eu chegasse a ouvir

No oco deste caixão

Que não fosse esse soturno

Bater do meu coração!

Se eu conseguisse esticar

Os braços num repelão

Inda rasgassem-me a carne

Os ossos que restarão!

Se eu pudesse me virar

As omoplatas romper

Na fúria de uma evasão

Ou se eu pudesse sorrir

Ou de ódio me estrangular

E de outra morte morrer!

 

 

Mas só me resta esperar

Suster a respiração

Sentindo o sangue subir-me

Como a lava de um vulcão

Enquanto a terra me esmaga

O caixão me oprime os membros

A gravata me asfixia

E um lenço me cerra os dentes!

Não há como me mover

E este lenço desatar

Não há como desmanchar

O laço que os pés me prende!

Bate, bate, mão aflita

No fundo deste caixão

Marca a angústia dos segundos

Que sem ar se extinguirão!

Lutai, pés espavoridos

Presos num nó de cordão

Que acima, os homens passando

Não ouvem vossa aflição!

Raspa, cara enlouquecida

Contra a lenha da prisão

Pesando sobre teus olhos

Há sete palmos de chão!

Corre mente desvairada

Sem consolo e sem perdão

Que nem a prece te ocorre

À louca imaginação!

Busca o ar que se te finda

Na caverna do pulmão

O pouco que tens ainda

Te há de erguer na convulsão

Que romperá teu sepulcro

E os sete palmos de chão:

Não te restassem por cima

Setecentos de amplidão!

 

Vinicius de Moraes

Angela Adonica

•01/11/2009 • Deixe um comentário

 

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura

como se na margem de um oceano branco,

como se no centro de uma ardente estrela

de lento espaço.

 

Do seu olhar largamente verde

a luz caía como uma água seca,

em transparentes e profundos círculos

de fresca força.

 

Seu peito como um fogo de duas chamas

ardía em duas regiões levantado,

e num duplo rio chegava a seus pés,

grandes e claros.

 

Um clima de ouro madrugava apenas

as diurnas longitudes do seu corpo

enchendo-o de frutas extendidas

e oculto fogo.

 

Pablo Neruda

A veces me parece

•01/11/2009 • Deixe um comentário

A veces me parece

que estamos en el centro

de la fiesta

sin embargo

en el centro de la fiesta

no hay nadie

En el centro de la fiesta

está el vacío

Pero en el centro del vacío

hay otra fiesta.

 

Roberto Juarroz

Passeio

•31/10/2009 • Deixe um comentário

Não haverá um equívoco em tudo isso?

O que será em verdade transparência

Se a matéria que vê, é opacidade?

Nesta manhã sou e não sou minha paisagem

Terra e claridade se confundem

E o que me vê

Não sabe de si mesmo a sua imagem.

 

E me sabendo quilha castigada de partidas

Não quis meu canto em leveza e brando

Mas para o vosso ouvido o verso breve

Persistirá cantando.

Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.

 

Serão leves as límpidas paredes

Onde descansareis vosso caminho?

Terra, tua leveza em minha mão.

Um aroma te suspende e vens a mim

Numas manhãs à procura de águas.

E ainda revestida de vaidades, te sei

 

Hilda Hilst

IRA! – Vida Passageira

•31/10/2009 • 1 Comentário

Inicial

•31/10/2009 • 1 Comentário

O dia não é hora por hora.

É dor por dor,

o tempo não se dobra,

não se gasta,

mar, diz o mar,

sem trégua,

terra, diz a terra,

o homem espera.

E só

seu sino

está ali entre os outros

guardando em seu vazio

um silêncio implacável

que se repartirá

quando levante sua língua de metal

onda após onda.

De tantas coisas que tive,

andando de joelhos pelo mundo,

aqui, despido,

não tenho mais que o duro meio-dia

do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer

e sua advertência para deter-me.

Isto acontece para todo o mundo,

continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

 

Pablo Neruda

Abdicação

•31/10/2009 • Deixe um comentário

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho… eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa

Por que é feia a vida?

•31/10/2009 • 1 Comentário

Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai!

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego,

Maria Bethânia – Invocação(Passagem das Horas)

•31/10/2009 • 1 Comentário

É tão gentil e tão honesto o ar

•31/10/2009 • Deixe um comentário

 

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.

Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: "Suspira!"

Dante Alighieri

Gato Barbieri – Europa

•29/10/2009 • Deixe um comentário

Ah, Onde Estou

•29/10/2009 • 1 Comentário

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,

A banalidade devorante das caras de toda a gente!

Ah, a angústia insuportável de gente!

O cansaço inconvertível de ver e ouvir!

(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,

Estômago da alma alvorotado de eu ser…

 

Alvaro de Campos

Elton John – Your song

•28/10/2009 • Deixe um comentário

O Nosso Mundo

•28/10/2009 • 1 Comentário

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos

Como um divino vinho de Falerno!

Poisando em ti o meu amor eterno

Como poisam as folhas sobre os lagos…

 

Os meus sonhos agora são mais vagos…

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…

E a Vida já não é o rubro inferno

Todo fantasmas tristes e pressagios!

 

A vida, meu Amor, quer vivê-la!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,

Bocas unidas hemos de bebê-la!

 

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…

O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…

 

Florbela Espanca

Irrita-me a felicidade…

•28/10/2009 • Deixe um comentário

Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem com dor de dentes que houvesse recebido uma fortuna – a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) à alegria e à dor. Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!

 

Fernando Pessoa, O Livro do desassossego

Poética

•28/10/2009 • Deixe um comentário

 

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o

cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

 

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

 

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora

de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário

do amante exemplar com cem modelos de cartas

e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

 

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

 

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 

Manuel Bandeira

 

 


 

Ser

•28/10/2009 • Deixe um comentário

O filho que eu não fiz

hoje seria homem

Ele corre na brisa

sem carne sem nome.

 

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem

Apóia em meu ombro

seu ombro nenhum.

 

Interrogo meu filho

objeto de ar:

em que gruta ou concha

quedas abstrato ?

 

Lá onde eu jazia

responde-me o hálito:

não me percebeste

porém chamava-te

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo aspira a criar-se.

 

o filho que eu não fiz

faz-se por si mesmo.

 

Carlos Drummond de Andrade

Entre os teus lábios

•28/10/2009 • Deixe um comentário

Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

 

Eugénio de Andrade

 

 

 


 

Echo & the Bunnymen – Nothing Lasts Forever

•26/10/2009 • Deixe um comentário

Primavera

•26/10/2009 • Deixe um comentário

Ah! quem nos dera que isto, como outrora,

Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera

Que inda juntos pudéssemos agora

Ver o desabrochar da primavera!

 

Saíamos com os pássaros e a aurora.

E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,

Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:

“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

 

E esse corpo de rosa recendia,

E aos meus beijos de fogo palpitava,

Alquebrado de amor e de cansaço…

 

A alma da terra gorjeava e ria…

Nascia a primavera… E eu te levava,

Primavera de carne, pelo braço!

 

Olavo Bilac

Noite de Saudade

•26/10/2009 • Deixe um comentário

A Noite vem poisando devagar

Sobre a Terra, que inunda de amargura …

E nem sequer a bênção do luar

A quis tornar divinamente pura …

 

Ninguém vem atrás dela a acompanhar

A sua dor que é cheia de tortura …

E eu oiço a Noite imensa soluçar!

E eu oiço soluçar a Noite escura!

 

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!

É que, talvez, ó Noite, em ti existe

Uma Saudade igual à que eu contenho!

 

Saudade que eu sei donde me vem …

Talvez de ti, ó Noite! … Ou de ninguém! …

Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

 

Florbela Espanca

Ao longo da muralha

•26/10/2009 • Deixe um comentário

 

Ao longo da muralha que habitamos

Há palavras de vida há palavras de morte

Há palavras imensas,que esperam por nós

E outras frágeis,que deixaram de esperar

Há palavras acesas como barcos

E há palavras homens,palavras que guardam

O seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras,surdamente,

As mãos e as paredes de Elsenor

 

E há palavras e nocturnas palavras gemidos

Palavras que nos sobem ilegíveis À boca

Palavras diamantes palavras nunca escritas

Palavras impossíveis de escrever

Por não termos connosco cordas de violinos

Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

E os braços dos amantes escrevem muito alto

Muito além da azul onde oxidados morrem

Palavras maternais só sombra só soluço

Só espasmos só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados

E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

 

Mário Cesariny

 

 

 

 

Barcarola

•26/10/2009 • Deixe um comentário

Cantam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas.

 

Espelham-se os esplendores

Do céu, em reflexos, nas

Águas, fingindo cristais

Das mais deslumbrantes cores.

 

Em fulvos filões doirados

Cai a luz dos astros por

Sobre o marítimo horror

Como globos estrelados.

 

Lá onde as rochas se assentam

Fulguram como outros sóis

Os flamívomos faróis

Que os navegantes orientam.

 

Vai uma onda, vem outra onda

E nesse eterno vaivém

Coitadas! não acham quem,

Quem as esconda, as esconda…

 

Alegoria tristonha

Do que pelo Mundo vai!

Se um sonha e se ergue, outro cai;

Se um cai, outro se ergue e sonha.

 

Mas desgraçado do pobre

Que em meio da Vida cai!

Esse não volta, esse vai

Para o túmulo que o cobre.

 

Vagueia um poeta num barco.

O Céu, de cima, a luzir

Como um diamante de Ofir

Imita a curva de um arco.

 

A Lua — globo de louça —

Surgiu, em lúcido véu.

Cantam! Os astros do Céu

Ouçam e a Lua Cheia ouça!

 

Ouça do alto a Lua Cheia

Que a sereia vai falar…

Haja silêncio no mar

Para se ouvir a sereia.

 

Que é que ela diz?! Será uma

História de amor feliz?

Não! O que a sereia diz

Não é história nenhuma.

 

É como um requiem profundo

De tristíssimos bemóis…

Sua voz é igual à voz

Das dores todas do mundo.

 

“Fecha-te nesse medonho

Reduto de Maldição,

Viajeiro da Extrema-Unção,

Sonhador do último sonho!

 

Numa redoma ilusória

Cercou-te a glória falaz,

Mas nunca mais, nunca mais

Há de cercar-te essa glória!

 

Nunca mais! Sê, porém, forte.

O poeta é como Jesus!

Abraça-te à tua Cruz

E morre, poeta da Morte!”

 

— E disse e porque isto disse

O luar no Céu se apagou…

Súbito o barco tombou

Sem que o poeta o pressentisse!

 

Vista de luto o Universo

E Deus se enlute no Céu!

Mais um poeta que morreu,

Mais um coveiro do Verso!

 

Cantam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas!

 

Augusto dos Anjos

Desejo a você fruto do mato

•26/10/2009 • Deixe um comentário

Desejo a você fruto do mato,

cheiro de jardim, namoro no portão,

domingo sem chuva, segunda sem mau humor,

sábado com seu amor, filme de Carlitos,

chope com os amigos, crônica de Rubem Braga,

viver sem inimigos, filme antigo na tv,

ter uma pessoa especial, e que ela goste de você,

música de Tom com letra de Chico, frango caipira em pensão no interior,

ouvir uma palavra agradável, ter uma surpresa agradável,

ver a banda passar, noite de lua cheia,

rever uma velha amizade, te fé em Deus,

não ter que ouvir a palavra “não”,

nem nunca, nem jamais adeus.

Rir como criança, ouvir canto de passarinho,

sarar de resfriado, escrever um poema de amor que nunca será rasgado,

formar um par ideal, tomar banho de cachoeira,

pegar um bronzeado legal, aprender uma nova canção,

esperar alguém na estação, queijo com goiabada,

pôr de sol na roça, uma festa, um violão, uma seresta,

recordar um amor antigo, ter um ombro sempre amigo,

bater palmas de alegria, uma tarde amena,

calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona,

ouvir a chuva no telhado, vinho branco, Bolero de Ravel . . .

e muito carinho meu !!!

 

Carlos Drummond de Andrade

Astor Piazzolla: milonga del angel

•23/10/2009 • Deixe um comentário