Obscured By Clouds

Maio 16, 2008

Pra pensar…

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 5:58 am

A vida está cheia de interferências indébitas, de acasos estúpidos, de personagens errados que travam conosco desencontrados diálogos de surdos, a vida está atravancada de pormenores inúteis, a vida parece um romance mal feito!

Mário Quintana

Elvis Presley - And I love you so

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:55 am

 

Tradução

 

 

E eu te amo tanto…
E eu te amo tanto,

as pessoas me perguntam como?
Como eu tenho vivido até agora,

eu digo a eles que eu não sei
Eu acredito que eles entendam,

como a vida tem sido solitária
Mas a vida recomeçou,

no dia em que você tomou minhas mãos
É claro que eu sei,

o quão solitária pode ser a vida
As sombras me perseguem

e a noite não me libertará
Mas eu não deixo

o anoitecer me entristecer
Agora que você está ao meu redor!
E você me ama tanto,

seus pensamentos são apenas em mim
Você libertou o meu espírito

e eu sou feliz pelo que você faz
Olhar sobre a vida é breve,

uma vez que a página está lida
Tudo se vai nesta vida, exceto o amor…

nisto é que eu acredito

EL ALFARERO

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 5:55 am
Todo tu cuerpo tiene
copa o dulzura destinada a mí.
Cuando subo la mano
encuentro en cada sitio una paloma
que me buscaba, como si te hubieran, amor, hecho de arcilla
para mis propias manos de alfarero.
Tus rodillas, tus senos,
tu cintura faltan en mí como en el hueco
de una tierra sedienta
de la que desprendieron
una forma,
y juntos
somos completos como un solo río,
como una sola arena.

Pablo Neruda

A Felicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:52 am

Aquele que abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Vi uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas que posso eu fazer com uma palavra e uma mitologia.
As árvores metem-me um pouco de medo. São tão belas.
Os tranquilos animais aproximam-se para que eu lhes diga o seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro irrompem.
Ao folhear o atlas projecto a forma de Samatra.
Aquele que acende um fósforo no escuro está a inventar o fogo.
No espelho há um outro que espreita.
Aquele que olha o mar vê Inglaterra.
Aquele que profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas em que ambos se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.
Aquele que desce um rio desce o Ganges.
Aquele que contempla uma ampulheta vê a dissolução de um império.
Aquele que brinca com um punhal pressagia a morte de César.
Aquele que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de construir.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, mas de maneira eterna.
Aquele que lê as minhas palavras está a inventá-las.

 

Jorge Luis Borges

Maio 15, 2008

Pra pensar…

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:59 am

“O conhecimento traz consigo a solidão.”

                                                    Nietzsche

Phil Collins & Eric Clapton - I Wish it would rain down

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:59 am

Basta pensar em sentir

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 6:53 am

“Basta pensar em sentir

Para sentir em pensar.

Meu coração faz sorrir

Meu coração a chorar.

Depois de parar de andar,

Depois de ficar e ir,

Hei de ser quem vai chegar

Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.”

 

Fernando Pessoa

O MORCEGO

Arquivado em: Augusto do Anjos — kavorka @ 6:52 am

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

 

Augusto dos Anjos.

Fascínio

Arquivado em: Sem Categoria — kavorka @ 6:51 am
Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

Objeto de Amor

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:43 am

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

 

Adélia Prado 

 

Maio 14, 2008

Paixão - Kleiton & Kledir

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:08 am

Como este poema chega a alma.

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:07 am

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar…e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

 

Florbela Espanca

 

Não Quero Rosas Desde que Haja Rosas

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:51 am

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?… Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria…
Ah, com que esmola a aquecerei?…

Fernando Pessoa

 

PONTO DE FUGA

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:48 am

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

 

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade)

Maio 11, 2008

Marillion - Wish You Were Here

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:20 pm

Mãe

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 4:19 pm

São três letras apenas.
As desse nome bendito:
Também o céu tem três letras,
e nelas cabe o infinito.

Para louvar a nossa mãe,
todo bem que se disser
nunca há de ser tão grande
como o bem que ela nos quer.

Palavra tão pequenina,
bem sabem os lábios meus
que és do tamanho do céu
e apenas menor do que Deus!


Mário Quintana

Elvis Presley - I just can’t help believing

Arquivado em: Musica — kavorka @ 1:12 am

Somos donos

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 1:10 am

Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos…
Atos sao pássaros engailoados,
sentimentos são passaros em vôo.

Mário Quintana

Timidez

Arquivado em: Cecilia Meireles — kavorka @ 1:06 am

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
- e um dia eu me acabarei.

 

Cecília Meirelles

As lentas nuvens fazem sono

Arquivado em: Outros — kavorka @ 1:05 am

As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo…
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo…

 

Fernando Pessoa

De noite

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 1:04 am

De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem
as trevas como um duplo tambor
combatendo no bosque

contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho.
Interceptando o fio das uvas terrestres
com pontualidade de um trem descabelado

que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate.
Com as asas de um cisne submergido,

para que as perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.

 

Pablo Neruda

Palavra mágica

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 1:02 am

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida

a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.

Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade

Maio 9, 2008

Que c’est triste Venise - Charles Aznavour

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:33 am

Passeio no Campo

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:31 am

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina…
Pele dourada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
- Vamos correr e rir por entre o trigo!

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoulas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

Florbela Espanca

Limites do Amor

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:27 am
 

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

 

O MAPA

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 5:24 am


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…

 

 Mário Quintana

"O coração, se pudesse pensar, pararia.

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:23 am

“O coração, se pudesse pensar, pararia.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também”.

Bernardo Soares

O Palácio da Ventura

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:18 am

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

 

Antero de Quental

 

 

Maio 3, 2008

Dias melhores - Jota Quest

Arquivado em: Musica — kavorka @ 8:48 pm

Rítmo

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 8:46 pm

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa
até que enfim
se desenrola
toda a corda
e o mundo gira imóvel como um pião!

 

Mário Quintana

 

Satânia

Arquivado em: Olavo Bilac — kavorka @ 8:43 pm

Sobe… cinge-lhe a perna longamente;
Sobe…- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril!- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.

E aos mornos beijos, às carícias ternas,
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia…

 

Olavo Bilac


Serenata

Arquivado em: Cecilia Meireles — kavorka @ 8:40 pm

 

Permita que eu feche os meus olhos,

pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:

que me conforme em ser sozinha.

Há uma doce luz no silencio,

e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto

para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho

como as estrelas no seu rumo.

 

Cecília Meireles

RECEITA DE MULHER

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 8:39 pm

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

 

Vinícius de Moraes

NÓS

Arquivado em: Outros — kavorka @ 8:36 pm

Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- “Que é feito dela?” - indagarão - coitados!

E os amigos dirão: - “Que é feito dela?”
Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;
irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

 

Guilherme de Almeida

Maio 2, 2008

Amy Winehouse - Back to Black

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:01 am

Amar!

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:01 am

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui…além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!…
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

Ser Grande

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 6:00 am

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.

 

Fernando Pessoa

 

Hylas and nymphs By John William Waterhouse, 1896

Arquivado em: Artes — kavorka @ 6:00 am

hylas_and_nymphs By John William Waterhouse, 1896

Canção

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:58 am

Não leves nunca de mim

A filha que tu me deste

A doce, úmida, tranqüila

Filhinha que tu me deste

Deixe-a, que bem me persiga

Seu balbucio celeste.

Não leves; deixa-a comigo

Que bem me persiga, a fim

De que eu não queira comigo

A primogênita em mim

A fria, seca, encruada

Filha que a morte me deu

Que vive desdentada

Do leite que não é seu

E que de noite me chama

Com a voz mais triste que há

E pra dizer que me ama

E pra chamar-me de pai.

Não deixes nunca partir

A filha que tu me deste

A fim de que eu não prefira

A outra, que é mais agreste

Mas que não parte de mim.

 

Vinicius de Moraes

Assovio

Arquivado em: Cecilia Meireles — kavorka @ 5:57 am

Ninguém abra a sua porta
para ver o que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
- a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

Cecília Meirelles

Testamento do poeta

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:56 am

 

Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!…
Basta-me o gesto de contar um verso.

José Régio

Amy Winehouse -You Know I’m No Good

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:54 am

Universalidade

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:49 am

                                    Aqui declaro que não tem fronteiras.
                                    Filho da sua pátria e do seu povo,
                                    A mensagem que traz é um grito novo,
                                    Um metro de medir coisas inteiras.
                                    Redonda e quente como um grande abraço
                                    De polo a polo, a sua humanidade,
                                    Tendo raízes e localidade,
                                    É um sonho aberto que fugiu do laço
                                    Vento da primavera que semeia
                                    Nas montanhas, nos campos e na areia
                                    A mesma lúdica semente,
                                    Se parasse de medo no caminho,
                                    Também parava a vela do moinho
                                    Que mói depois o pão de toda a gente.

 

Miguel Torga

Courtyard Of a House In Delfi - Pieter de Hooch

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:48 am

CourtyardOfaHouseInDelfi-PieterdeHooch

Poema de Despedida

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:40 am

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

 

Rabindranath Tagore

Maio 1, 2008

NICOLE KIDMAN & EWAN MCGREGOR COME WHAT MAY

Arquivado em: Musica — kavorka @ 7:57 am

Não sei quantas almas tenho

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 7:56 am

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

 

Fernando Pessoa

 

 

Poema 7

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 7:56 am

INCLINADO en las tardes tiro mis tristes redes
a tus ojos oceánicos.

Allí se estira y arde en la más alta hoguera
mi soledad que da vueltas los brazos como un
náufrago.

Hago rojas señales sobre tus ojos ausentes
que olean como el mar a la orilla de un faro.
Solo guardas tinieblas, hembra distante y mía,
de tu mirada emerge a veces la costa del espanto.

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes
a ese mar que sacude tus ojos oceánicos.
Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas

que centellean como mi alma cuando te amo.
Galopa la noche en su yegua sombría
desparramando espigas azules sobre el campo.

 

Pablo Neruda

Para Erico Verissimo

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 7:55 am

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado…

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude…

 

Mário Quintana

 

Ouve, meu anjo

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 7:54 am

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino

É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado

Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

António Botto

 

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